Timnit Gebru: quem é a funcionária do Google demitida após acusar empresa de racismo e censura

05/12/2020 15h13

Centenas de funcionários do Google assinaram uma carta em apoio à pesquisadora da área de inteligência artificial (IA) Timnit Gebru, que foi demitida pela empresa recentemente.

Gebru diz que foi demitida após enviar um e-mail interno acusando o Google de “silenciar vozes marginalizadas”. Centenas de sua colegas assinaram uma carta acusando a gigante da tecnologia de racismo e censura.

Gebru também angariou apoio nas redes sociais, com usuários do Twitter usando a hashtag #BelieveBlackWomen (Acredite nas Mulheres Negras, em inglês) para defendê-la.

O Google diz que houve “muita especulação e mal-entendido” sobre a demissão.

Gebru é uma pesquisadora respeitada no campo da ética no uso da Inteligência Artificial. Ela é bem conhecida por seu trabalho sobre preconceito racial em tecnologia e por sua crítica a sistemas de reconhecimento facial que não reconhecem rostos negros, porque são calibrados para os rostos de brancos.

Coautora em um dos artigos conhecidos da pesquisadora, a cientista da computação Joy Buolamwini disse que Gebru “merecia mais” do Google.

“Desprezar Timnit por ter a audácia de exigir integridade de pesquisa mina seriamente a credibilidade do Google em apoiar pesquisas rigorosas sobre ética em IA e auditoria algorítmica”, disse ela.

“Temos uma dívida de gratidão com ela por avançar não apenas no campo da inteligência artificial, mas por promover igualdade com humildade e graça.”

O que aconteceu?

Gebru alega que, enquanto se preparava para sair de férias, foi chamada para uma reunião sobre um artigo de pesquisa que escreveu. Ela disse que recebeu ordens de retirar seu nome do trabalho porque o Google não estava preparado para iniciar uma discussão sobre aquele tema.

Após a reunião, ela enviou um e-mail para um grupo interno denominado “Mulheres Cerebrais e Aliados”, criticando a decisão. Uma cópia do e-mail foi publicada pelo site Platformer.

“Não vale a pena você iniciar um debate sobre isso, já que você não é alguém cuja humanidade é reconhecida ou valorizada nesta empresa”, disse ela no e-mail. “Pare de escrever seus trabalhos porque não faz diferença.”

Gebru havia enviado um e-mail para sua chefe direta expondo algumas condições que ela exigia para remover seu nome do artigo. Se não fossem atendidas, disse ela “combinaria uma data” para sair da empresa.

Gebru disse que o Google respondeu: “Respeitamos sua decisão de deixar o Google e estamos aceitando seu pedido de demissão.”

“No entanto, acreditamos que o fim do seu emprego deve acontecer mais rápido, porque certos aspectos do e-mail que você enviou ontem à noite para funcionários não administrativos no grupo de refletem um comportamento que é inconsistente com as expectativas de um gerente do Google”, afirmou a empresa.

Gebru diz que não pediu demissão e que foi demitida por Jeff Dean, um gerente sênior do Google que lida com a pesquisa em IA.

“Acho que [a administração] decidiu por mim”, disse Gebru.

Qual foi a repercussão da demissão?

A notícia de sua demissão veio no mesmo dia em que uma agência governamental que fiscaliza relações trabalhista nos EUA acusou o Google de demitir ilegalmente funcionários que participam de atividades sindicais.

A carta aberta de apoio à cientista atraiu quase 2 mil signatários, tanto do Google quanto do setor de tecnologia em geral. A equipe do Google que trabalhou com Gebru elogiou suas contribuições acadêmicas e seu trabalho como gestora.

“Não consigo contar quantas vezes Timnit Gebru nos encorajou, falou por nós, nos defendeu e arriscou o pescoço por nós”, twittou Deb Raji, uma pesquisadora de IA.

“Ela fez sacrifícios reais pela comunidade negra. Agora é hora de apoiá-la!”

O que diz o Google

Em um e-mail, Jeff Dean disse que houve “muita especulação e mal-entendido” sobre a demissão. Ele alegou que o artigo de Gebru foi apresentado um dia antes do prazo, o que não era tempo suficiente para o processo de revisão do Google. Ele também disse que trabalho “ignorou muitas pesquisas relevantes”.

“Timnit respondeu com um e-mail exigindo que uma série de condições sejam atendidas para que ela continue trabalhando no Google, incluindo a revelação das identidades de cada pessoa com quem conversamos e consultamos como parte da revisão do artigo e do feedback”, afirmou.

“Timnit escreveu que, se não atendêssemos a essas demandas, ela deixaria o Google. Aceitamos e respeitamos sua decisão de sair do Google”, escreveu Dean.

Fonte: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/bbc/2020/12/05/timnit-gebru-quem-e-a-funcionaria-do-google-demitida-apos-acusar-empresa-de-racismo-e-censura.htm