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Introdução
O couro é sinônimo de luxo, especialmente em carros. Visitamos um dos maiores curtumes do mundo, na Itália, para desvendar mitos e verdades sobre sua produção. Conheça o processo, da pele crua ao acabamento de grife, e entenda o debate sobre sustentabilidade e as alternativas veganas.
- Mitos e verdades: O gado para couro de luxo realmente ouve música clássica e vive sem cercas de arame farpado?
- Por dentro da fábrica: Acompanhamos passo a passo como a pele animal se transforma no revestimento de marcas como Porsche e Audi.
- Dilema ambiental: O que é mais sustentável, o couro natural, o material sintético derivado de petróleo ou as novas alternativas veganas?
- Tradição italiana: Conheça Arzignano, a cidade na Itália que se tornou um polo mundial da indústria do couro e trata a atividade como patrimônio cultural.
- O futuro é vegetal? Saiba mais sobre os couros feitos de cactos, cogumelos e até resíduos de frutas que desafiam a indústria tradicional.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Couro é uma matéria-prima nobre, relacionada a produtos sofisticados. É assim na indústria da moda, mobiliário, náutica, aviação e automotiva. O cobiçado cheiro de carro novo, nos segmentos de luxo, remete principalmente ao cheiro de couro presente no revestimento. Nos segmentos inferiores, em alguns casos, as marcas aplicam essências aromáticas de couro aos materiais de acabamento. Em razão disso, existem diversas narrativas a respeito dessa matéria-prima.
Muito se fala sobre peles especiais, obtidas a partir de animais que crescem rodeados de cuidados, como alimentação balanceada; que vivem em pastos onde não existem cercas de arame farpado e os troncos das árvores são encapados com espuma, para evitar ferir o rebanho; lugares em que se ouve música clássica, para relaxar os animais. Esses cuidados até existem, mas, na maioria das vezes, não é isso que acontece.
Para saber mais sobre couro, visitamos um dos maiores curtumes do mundo, o Gruppo Mastrotto, que tem sede na Itália e filiais em países como Indonésia, México, Tunísia e Brasil (na cidade de Cachoeira, a 120 km de Salvador, na Bahia).
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O Grupo produziu ano passado 22 milhões de metros quadrados de couro tendo a indústria automotiva como seu principal cliente, respondendo por 85% do faturamento da empresa. O couro produzido no Brasil atende majoritariamente o setor moveleiro, mas uma parte serve ao mercado automotivo de reposição.

A sede do Mastrotto fica na cidade italiana de Arzignano, em Vicenza, na região do Vêneto. Na Itália, essa atividade existe há anos e é considerada patrimônio cultural. Lá há cerca de 300 curtumes, sendo que Arzignano é conhecida por abrigar diversos deles, os quais se instalaram ali, no início do século 20 por conta da oferta de água, um insumo muito utilizado por essa indústria.
Os efluentes dos curtumes são tratados pela própria prefeitura da cidade. Em Arzignano há também uma escola técnica que forma profissionais para trabalhar nos curtumes, além de uma praça que homenageia um dos pioneiros, o fundador do Gruppo Mastrotto, Arciso Mastrotto, que atualmente é administrado pela terceira geração dos descendentes.
Na visita que fizemos a algumas unidades do grupo, acompanhamos o ciclo completo de produção.

As peles in natura chegam dos abatedouros conservadas em sal ou diretamente dos frigoríficos, congeladas. Por isso, a primeira fase do processo, que prepara o couro para o curtimento, consiste na lavagem das peles para a retirada do sal, bem como gordura e pelos. Depois disso, a pele passa por banhos químicos, que fazem o curtimento propriamente dito, quando o couro se torna macio e resistente à decomposição. Terminada essa etapa, o couro fica azulado, por conta do cromo usado no curtimento. Mas existe também o chamado curtimento vegetal, que usa substâncias naturais, como tanino, o que deixa o couro com a cor bege, meio amarelado.

A partir daí, a próxima fase é a de tingimento. Todos esses processos (limpeza, curtimento e tingimento )são feitos em grandes tambores industriais, com capacidade entre 500 e 1.500 peles. E a secagem das peles pode acontecer de diferentes modos, desde o natural, em que o couro fica pendurado em varais, até em secadoras (térmicas ou a vácuo). A forma usada influencia nas características finais do produto (maciez, elasticidade). Depois de passar por testes de qualidade, o couro está pronto para ser vendido.

O couro automotivo é aplicado em bancos, volantes, painéis, laterais de portas, encostos de cabeça, alavancas de câmbio e colunas. Cada aplicação exige características específicas, como resistência e permeabilidade.
O Gruppo fornece couro para marcas como Audi, Mercedes, Porsche e Volvo, como equipamento original e também atua no mercado de reposição, sendo representado oficialmente no Brasil pela empresa Paulinho Couros, de Curitiba (PR), que é a distribuidora exclusiva para a América Latina.

Tudo o que contam sobre o couro é verdade, mas somente uma pequena parcela do couro de qualidade vem de rebanhos criados com essa finalidade. Isso porque o couro é um subproduto da produção de carne e os pecuaristas, em geral, não se preocupam com a proteção das peles dos animais. No Brasil, a Embrapa criou até o Programa de Melhoria e Qualidade do Couro, que preconiza procedimentos para que o país, grande produtor de carne, possa se tornar também um grande fornecedor de peles de qualidade.
Em busca da sustentabilidade
Assim como na indústria de pneus, de tintas etc., a questão ambiental é um desafio para os curtumes, que vêm aprimorando seus processos para diminuir o impacto de sua atividade. Segundo o Mastrotto, os cuidados, nesse sentido, começam pela compra de peles de origem comprovada, vinda de fazendas que não desmatam florestas para a criação de pastos; e segue nos curtumes, reduzindo o consumo de água e tratando os efluentes de forma eficaz; substituindo matérias-primas e integrando o couro na chamada economia circular. Em Arzignano existe uma empresa que usa os subprodutos dos curtumes como matéria-prima para a produção de fertilizantes agrícolas.

Segundo Mastrotto, atualmente, mais de 93% dos resíduos gerados pelo Gruppo são transformados e reutilizados em outros setores, desde bioestimulantes e fertilizantes para agricultura até gelatina e colágeno para a indústria alimentícia, e matérias-primas para os mais diversos setores, como o farmacêutico, de embalagens e da construção civil.
Alguns fabricantes de automóveis optam por usar materiais sintéticos que imitam couro (e custam menos) com a justificativa de eles serem menos agressivos ao meio ambiente. Mas, assim como os automóveis elétricos, que se apresentam como alternativa aos modelos a combustão, os materiais sintéticos também têm suas contradições do ponto de vista ambiental. De fato, na fase de produção, o material sintético, feito de polímeros (como PVC e poliuretano), polui menos e gasta menos energia. Mas no descarte pode gerar problemas, pois não se degrada facilmente e libera microplásticos e substâncias tóxicas na natureza. Além disso, esses materiais têm menor durabilidade, o que tende a aumentar o consumo e o descarte.

Uma alternativa melhor pode ser os chamados materiais veganos, feitos com fibras vegetais como cactos, cogumelos e resíduos de frutas como abacaxi e maçã, que são biodegradáveis. Mas sua produção ainda é pequena e esses materiais ainda precisam de desenvolvimento, para atender os requisitos exigidos pela indústria e pelos consumidores.



