Clubhouse está em alta, mas e a privacidade de dados? Melhor ficar esperto

Carlos Affonso

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

12/02/2021 14h22

Você já entrou em uma rede social antes de ela viralizar? Já sentiu o gostinho de explorar esse espaço virtual enquanto os amigos e os famosos começam a chegar aos poucos? É o maior barato ser pioneiro e poder depois dizer que você estava lá quando tudo era mato. E se esse ingresso antecipado for só por convite? Aí sim! Todo mundo adora uma exclusividade.

Você já está no Clubhouse? A rede social baseada em interações por voz virou a sensação do começo de 2021. Rodando ainda em “soft opening”, a plataforma promete interações mais autênticas, conversas francas e inspiradoras, além da oportunidade de conhecer novas pessoas. Isso acontece em salas de bate-papo que podem ser espontâneas ou marcadas previamente.

Tem conversa sobre política, astrologia, bem-estar e a estruturação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (bom, pelo menos é o que anda aparecendo pra mim). Dá para imaginar que no futuro vão se popularizar salas para batalha de rap, narração de futebol, dedicadas a xingamentos (só para extravasar) e aquelas mais privadas para uma conversa cheia de ousadia.

Uma rede social ancorada em voz é uma novidade boa? Nos últimos anos muita gente tentou fazer isso com o WhatsApp, mandando áudios inconvenientes e desnecessários, enfrentando, contudo, forte resistência daqueles que preferem escrever as suas mensagens. Os sumérios inventaram a escrita há cerca de cinco mil e quinhentos anos para ver se as pessoas paravam de mandar áudio. A luta deles continua.

Para além do hype, um ponto vem chamando atenção no Clubhouse: como a rede social coleta e trata os dados pessoais de quem usa o app (e daqueles que simplesmente constam nas suas agendas de contatos). Aqui vão seis pontos para você ficar de olho.

Você pode até não estar no Clubhouse, mas a empresa já deve ter o seu nome e telefone

A cada nova pessoa que entra na rede é solicitado que ele compartilhe a sua agenda de contatos do celular. Para que isso acontece? Para que o Clubhouse possa saber quais amigos seus já estão por lá. Abrir a agenda de contatos é requisito também para que você possa convidar amigos a ingressar no Clubhouse.

Ou seja, mesmo que você ainda não esteja no Clubhouse, se algum amigo seu está e ele compartilhou a agenda de contatos do celular com a empresa, ela agora já tem armazenado os dados sobre o seu nome e seu telefone.

Mas pode uma empresa coletar e tratar dados pessoais de quem nunca interagiu com ela? O nome disso é “shadow profile” e ele acontece toda vez que uma empresa, através de uma atividade de seu usuário ou cliente (como postar uma foto, um vídeo ou compartilhar a agenda de contatos), passa a tratar dados de outras pessoas que não tem conta ou qualquer relação com a mesma. Imagina que você postou uma foto em uma rede social com um amigo, colocou o nome dele na descrição, mas ele não tem conta nessa rede. A empresa provavelmente já armazenou o nome e a aparência dele.

Com o Clubhouse não é diferente. O problema com esse modelo é que ele transforma os seus amigos nos responsáveis pelo uso inadvertido dos seus dados pessoais. A gente espera que a rede não passe por nenhum incidente de vazamento de dados, mas se isso acontecer você pode ter duas certezas: 1) não é porque você não criou a sua conta no Clubhouse que os seus dados não podem ser vazados por lá; e 2) você pode culpar os seus amigos por isso.

Mas por que o Clubhouse quer tanto a sua agenda de contatos?

Para crescer. É através das redes de contatos que o Clubhouse vai mapeando as relações e assim pode estimular que você convide seus amigos ou fazer com que novos entrantes saibam quais conhecidos já estão na plataforma.

Com a rede ainda sendo um ambiente bastante exclusivo, cada convite passa a ser muito valorizado. Ainda mais que por enquanto o Clubhouse só está disponível para dispositivos iOS e, ao ingressar, cada pessoa recebe dois convites apenas.

É a partir da sua agenda de contatos que a empresa pode então gerenciar a dinâmica dos convites. Nos últimos dias as pessoas vêm reportando que a empresa vem sendo generosa com a adição de convites extras quando ela percebe que algum contato seu está na lista de espera. Quem não gostaria de fazer uma boa ação sem custo algum (e ainda ser creditado por isso)?

É um “win-win”, todos ganham. Você faz uma graça com um amigo, é creditado no perfil dele como sendo quem abriu a porta e a empresa ganha a oportunidade de coletar mais uma agenda de contatos, aumentar a base de usuários e consequentemente a sua avaliação de mercado, que não para de crescer.

Dá para saber muita coisa vendo quem convidou quem

Quando você convida alguém para entrar no Clubhouse o seu nome passa a constar no perfil dessa pessoa. Ela fica marcada como tendo sido “nominated by” (indicada por você). Essa informação é aparentemente trivial, mas basta um passeio pelos perfis de famosos para montar uma rede interessante de contatos.

Achei fofo que o Gregório Duvivier entrou na plataforma a convite da sua mãe (Olivia Byington). Felipe Neto, por exemplo, foi convidado por Flávio Augusto, fundador do WiseUp e do Geração de Valor. Gabriela Prioli foi convidada por Rodrigo Maia (calma, é um homônimo, jornalista da CNN). Luciano Huck foi convidado pelo Sultão Almaadeed e Preta Gil por uma guia turística de brasileiros em Dubai.

Dá para aproveitar o Clubhouse sem comprometer a privacidade dos amigos

Se você quiser experimentar a plataforma sem convidar (nem expor) ninguém, basta não aceitar o compartilhamento de agenda de contatos quando entrar na rede social. Se algum amigo seu compartilhou a agenda, assim que você entrar o Clubhouse vai reconhecer seu nome e telefone (a partir da agenda dos amigos) e já criar uma sala entre vocês. Não dá para entrar discretamente.

Ficou com dúvidas se você compartilhou ou não a agenda? Dá um pulinho lá no seu iPhone em Ajustes Privacidade Contatos e veja se a opção está desmarcada para o Clubhouse.

O áudio das salas de conversa está sendo gravado

Em sua política de privacidade, que você só consegue ler depois de passar todas as fases do cadastro, a empresa informa que o grava o áudio de uma sala de conversa enquanto ela está ativa “com o propósito de apoiar investigações de incidentes”. Caso alguém reporte um incidente, o áudio ficará retido para investigação.

Quer deletar sua conta? Mande um email

Caso você decida apagar a sua conta e sair do Clubhouse, não existe solução imediata para isso. De acordo com a política de privacidade da empresa, para sair da plataforma a pessoa deve se logar e mandar um email para [email protected] Quem passou pelo processo já informou que a empresa pede uma semana para concluir o processo.

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O Clubhouse veio para ficar? É difícil dizer, mas os alertas sobre privacidade são importantes para que você possa experimentar a nova rede social do momento ciente da forma pela qual dados são coletados e tratados.

A Autoridade de Proteção de Dados de Hamburgo, na Alemanha, abriu uma investigação sobre a modalidade de compartilhamento de agendas de contatos da empresa. Embora essa dinâmica de coleta de dados não seja nova, o crescimento rápido do Clubhouse acabou chamando atenção e jogando os holofotes sobre a sua política de privacidade, que precisa ser aperfeiçoada.

Por aqui, a rede social segue fazendo barulho, até porque o brasileiro adora jogar conversa fora. Só vale tomar cuidado para não jogar a privacidade junto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Fonte: https://www.uol.com.br/tilt/colunas/carlos-affonso-de-souza/2021/02/12/precisamos-conversar-sobre-privacidade-no-clubhouse.htm